Estupro como recurso narrativo: já deu!

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Recentemente estava fazendo uma análise do livro e da série Game of Thrones. Decidi, então, que iria parar de assistir. Estou verdadeiramente cansada de ver o estupro sendo usado como recurso narrativo para dar profundidade, ou complexidade ao personagem feminino. Pior ainda, quando é usado para desenvolver um personagem masculino, que muitas vezes é o próprio estuprador.

Pode parecer uma surpresa para os roteiristas e diretores, mas mulheres que sofreram violência sexual têm muitas outras complexidades que não são derivadas da violência. É como se disséssemos que a parte mais interessante da mulher que foi estuprada, foi a violência que sofreu.

Mas, afinal, de onde vem isso?

Parte do nosso conhecimento é adquirido pela cultura de massa, e essa perpetuação da cultura do estupro só colabora para a perpetuação da violência em si. A romantização do abuso faz com que muitos nem sequer consigam diferenciar o crime do estupro de um ato sexual consensual.

Não sei vocês, mas em cenas desnecessárias, onde o estupro é mostrada sem nenhum intuito a não ser acalorar o coração do público masculino que fetichiza esse tipo de violência, me sinto pessoalmente ofendida.

Game of Thrones: Livro X Série (contém spoilers!!!)

Essa é uma série que me causa profunda indignação. Ao contrário dos livros, onde o autor George R. R. Martin aborda a complexidade das personagens femininas com tanto cuidado, nas telas, os produtores usam do estupro como recurso narrativo nas suas mais variadas formas.

Uma série que adora chocar o público, foi em contradição aos livros e criou enredos diferentes para algumas personagens, como Daenerys, Sansa Stark e Cersei Lennister.

Logo no primeiro episódio, a nossa amada Khaleesi é despida chorando e posteriormente estuprada por Khal Drogo. No livro, no entanto, a personagem coloca os dedos do marido dentro dela, mostrando que consente a relação, marcando, inclusive, um momento de transição do personagem, em que ela começa a ter o controle da sua vida, depois de passar por mal bocados na mão do seu irmão. Alguns até acreditam que a ideia dessa cena era mostrar uma personagem ainda fraca, que, a partir daí, iria ter sua transição. Mas, isso é justamente o uso do estupro como recurso narrativo.

Eles fazem isso com Sansa Stark também. Na quinta temporada, a personagem sofre pelas mãos de Ramsay, que a estupra sistematicamente. É só depois disso que se torna uma badass, empoderada. Não sei quem inventou que o estupro faz isso com a mulher. Vamos deixar muito claro que as raras mulheres empoderadas que foram estupradas em algum momento da vida não devem nada disso à violência.

E, pior ainda, são os comentários do pessoal por aí, dizendo que não foi um estupro, pois estavam casados e ela não lutou contra ele. QUE. Existe estupro dentro de casamentos também. Não é porque você casou que agora é dono do corpo da sua parceira.

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Estão notando o problema por trás disso tudo? A série é assistida por milhões de pessoas, e cenas como essas são naturalizadas. Eles conseguiram banalizar a violência sexual.

Outra cena que não deveria ter existido, e, inclusive, causou muita revolta, é o estupro de Cersei Lannister, pelo seu irmão e parceiro romântico Jamie Lannister. O problema ai não é o incesto, até porque, quem acompanha a série, sabe que os dois mantêm uma relação desde a primeira temporada. O problema é o estupro, que, mais uma vez, não estava no livro.

Em um episódio da quarta temporada, Cersei deixa muito claro, inclusive verbaliza, que não quer transar com o irmão, no entanto, ele ignora. O público ficou revoltado, muitos deixaram de assistir a série depois disso. O diretor do episódio chegou até a se posicionar, afirmando que, no final, ela havia consentido, então não poderia ser considerado estupro. Mais uma vez: QUE. Gente, sério, não sei lidar com esses homens.

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Vamos deixar claro que coagir alguém a praticar algum ato sexual é estupro SIM. Sabemos que desconsiderar o consentimento feminino na nossa sociedade é muito comum, e muitos vão na ideia de que não quer dizer sim, mas, caras, NÃO QUER DIZER NÃO.

Então, vamos mandar um recado pra esses roteiristas? 1. Queremos mais mulheres. Mulheres escrevendo pra mulheres. Queremos nos sentir representadas. E 2. Por favor, parem de usar o estupro como recurso narrativo. 

 

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